
De manhã Sophia acordou, cedendo aos gritos da mãe no corredor e do pai no portão falando que era a hora de partir dali durante os dois dias que a faziam mais insana.
Ela não queria ir, nunca queria, sentia sono, fome, e tinha quase certeza que sentia febre, mas provavelmente não sentia, porque nunca ficava doente.
Ela queria ligar o celular na esperança de ver '2 chamadas não atendidas', mas não haviam, só a foto de um casalzinho abraçado.. ela era sozinha.. ele não ligava pra ela, e ela não tinha coragem de ligar pra ele.. incapazes de se amar de verdade.. incapazes de amar de verdade.
Durante todo o romance ele exigiu que ainda fossem amigos, confidentes, ele exigiu que fossem amantes.
E ela, tola apaixonada, sempre concordou.
Mas agora ele não liga, ela não consegue discar. A mãe dando socos na porta, ela pedindo pra esperar.
Mas que merda. estava chorando, era incapaz de aguentar a pressão sem chorar. 'Como você é FRACA Sophia'
Ela abraçou as pernas, tocou os joelhos, e olhou a foto encima da cama, era uma bela moldura, com coraçõezinhos, 'eu te amo' e estrelas.. não havia nada mais piegas pra se colocar em volta da foto de um casal. Eram um casal bonito até, era linda a história da foto, era um momento raro onde ela estava feliz.
Ela era feliz, com ele..
Ela estava procupada, ele nem ligara para dizer 'Boa Noite', ela desesperou, teve a esperança de receber mensagens, ela não sabia dormir sem a sorte que ele lhe transmitia. Tentava parecer forte, mas infelizmente era romântica, e o amava, só ele entendia suas piadas rebuscadas, recurso de meninas inteligentes que não se aceitavam como tal.
Ele adorava seu sadismo, que combinava com seu masoquismo. Eram feitos um pro outro. O casal estranho sentando na praça, ela com seu cabelo com (estranhamente) irregulares mechas vermelhas, e ele num estlio quase inaceitável para a concepção da pequena cidade.
O seu coração batia tão rápido quanto sua quase arrebentava a porta.. e de repente, o telefone toca:
-Alô?
-Oi meu amor, tudo bem?
-Tudo bem, to quase de saída.
-Eu sei, liguei só pra falar que te amo, e que amanhã te busco naquele inferno e fujo com você.
-Promete?
-Prometo, eu te amo
-Eu também
O coração se acalmou, a mente limpou, a alma ficou mais leve, ela ainda a amava enfim, ligou porque sabia o quanto ela detestava fins de semana.
"Ele pensa nela, ela tem saudade"
Partiu..
Pra dois dias em meio a piadinhas sem graça, fofocas incoerente e perguntas sem sentido.
Vendo TV a cabo sonhava que ele ia buscá-la.. ligar.
Apesar de fazer muito tempo que isso não acontecia. Apesar dela achar que acontecia, ainda.
Ele não liga faz 1 ano, não diz 'Boa Noite', nem 'Bom Dia'
E ela continua presa nesse lugar, dizem que 'falando sozinha com o namorado que faleceu'
Mas ela o vê, sente e ouve.
Porque ele sempre dizia: "Eu luto por você,até seu coração parar de bater"